Nas últimas três décadas os profissionais (particularmente) de Economia, Administração, Computação e Design estiveram envolvidos com o fenômeno das “start-ups” (de modo focal aquelas baseadas em tecnologia), ou “empresas emergentes” (com questões tais como: o que são, como surgem, o que determina seu sucesso). A definição de start-up que se tornou mais popular foi aquela estabelecida pelo empreendedor serial estadunidense Steve Blank, um dos mentores do movimento “lean” (enxuto), ou “lean start-up” (start-up enxuta). De acordo com Blank, uma start-up “é uma organização temporária à procura de um modelo de negócio repetível e escalável”.

Durante aquele período muito conhecimento foi acumulado sobre start-ups, sobretudo em termos de políticas voltadas para o seu surgimento (incubadoras, aceleradoras, disciplinas de empreendedorismo, ecossistemas de inovação, parques tecnológicos e por aí vai). No entanto, um fenômeno ainda pouco entendido está relacionado não com o surgimento das start-ups, mas sim com relação ao seu crescimento, ou taxas de sucesso. Ou seja, estamos tratando das “scale-ups”, aquelas start-ups que se diferenciam da grande maioria porque têm rápido crescimento, escalam, e se tornam um tremendo sucesso, tais como Facebook, LinkedIn, Tesla, AirBnB, Uber dentre outras.

Um profissional que sempre esteve atento ao fenômeno do crescimento das empresas é o Professor Alex Coad, que depois de transitar por vários centros de conhecimento, leciona atualmente na Waseda Business School, na Waseda University, em Tóquio, no Japão. Autor de vários trabalhos, alguns dos quais tratamos em nosso livro de 2015, o Prof. Coad acaba de publicar, junto com três coautores (Anders Bornhall, Sven-Olov Daunfeldt e Alexander McKelvie), um livro que acreditamos venha ser um importante ponto de inflexão na literatura acadêmica e profissional sobre scale-ups e high-growth firms.

Trata-se do livro cujo título é o reproduzido por esta newsletter, e que foi lançado open acess (gratuitamente) pela editora Springer. Este livro está competentemente dividido em 8 (oito) capítulos. No seu capítulo inicial e de motivação, os autores começam com uma introdução à pesquisa em high-growth firms e scale-ups, focando no desenvolvimento da literatura, e observando que os trabalhos iniciais sobre scale-ups se centraram em evidência anecdotal (*) e estudos de caso. O livro busca, então, desenvolver uma definição rigorosa e geral de scale-ups que seja aplicável a bancos de dados de populações de empresas de diferentes países e períodos de tempo.

O capítulo 2 discute a pesquisa prévia sobre crescimento das empresas. De modo particular, trata como o Eurostat e a OECD propuseram um indicador de High-Growth Firms - HGF em 2007, que ajudou a desenvolver o campo da pesquisa em HGF, uma vez que tendo uma definição de HGF alimentaria comparações de achados de pesquisa e acúmulo de conhecimento.

O capítulo 3 trata dos modelos de estágios de crescimento para o entendimento das scale-ups. Uma das diferenças entre scale-ups e HGFs é que a pesquisa em HGFs não leva em consideração os estágios de crescimento, à medida que o crescimento seja rápido o suficiente. O capítulo apresenta o modelo de 4 estágios de crescimento de empresas de Steve Blank, onde scaling up (escalagem) é o estágio 3. Logo, scaling-up não ocorre diretamente no nascimento, entre as empresas mais jovens, mas preparação é necessária antes da escalagem. As diferenças entre scaling-up e o chamado “blitz-scaling” (que vimos na newsletter Blitzscaling: The Lightning-Fast Path to Building Massive Valuable Companies), de 18-11-2018), são também discutidas.

O capítulo 4 avança a investigação sobre a natureza das scale-ups ao introduzir 8 proposições sobre scale-ups: (1) scale-up é um conceito nascido entre praticantes, e não entre acadêmicos; (2) scale-ups não são somente no setor de TI, mas podem ser capacitadas por TI; (3) scale-up é um conceito qualitativo de um modelo de “estágios-de-crescimento”; (4) scaling-up envolve transformação estrutural; (5) uma scale-up não existe em qualquer lugar em forma pura; (6) scale-ups diferem em grau, e não em categoria; (7) muitas scale-ups são exceções; e (8) poderá nunca existir uma definição empírica padrão de scale-up. Cada uma destas proposições era tanto não clara, ou desentendida, em trabalhos anteriores ao livro.

O capítulo 5 parte da literatura para desenvolver a definição teórica dos autores sobre scale-up. Daí eles fazem 5 sugestões para uma definição teórica de uma scale-up: (1) scale-ups estão em todos os setores, não somente em TI; (2) scale-ups têm relativamente altos níveis de gastos em marketing e vendas; (3) scale-ups têm baixos custos marginais de produção; (4) scale-ups são jovens, mas não tão jovens; (5) ao definir scale-ups, nós começamos a partir do conjunto de HGFs.

O capítulo 6 assinala que o livro distingue entre uma definição teórica de uma definição empírica das scale-ups. A definição teórica busca clarificar o conceito nas mentes dos leitores; já uma definição empírica é formulada em termos de variáveis empiricamente relevantes, e conceitos como taxas de crescimento, indicadores de crescimento, e outras. A definição do livro aponta para 4 propriedades (**) e procede em 2 níveis: o nível 1 envolve pegar um subconjunto de HGFs; e, o nível 2 envolve selecionar scale-ups entre não scale-ups HGFs, com base nas 7 condições (inerentes a um processo de seleção) propostas.

O capítulo 7 traz a definição empírica de scale-up para os dados: um registro de dados da Suécia com 700.000 empresas no período de 1997 a 2021. Neste universo, 1,28% das empresas atingiram o critério de HGF. Entre estas HGFs, foi raro para uma empresa satisfazer todas as condições de scale-ups indicadas. 25,89% das HGFs satisfazem 5 ou mais das 7 condições para scale-ups, enquanto 60,75% da HGFs satisfazem 4 dentre as 7 condições.

O capítulo 8 traz as conclusões do livro, argumentando a ocasião de sua publicação, reconhecendo suas limitações, particularmente a restrição dos dados.

De qualquer forma, o livro aqui resenhado, que recomendamos fortemente, é um marco no tratamento deste tema tão comum atualmente, mas tão pouco analisado de forma sistemática. Apesar de não tratar da arquitetura da estruturação das empresas (enterprise architecture), nem da forma como esta dimensão afeta a governança das empresas (particularmente as suas estruturas de propriedade e de capital), tampouco como estas duas dimensões afetam o crescimento das empresas (tal como desenvolvemos no nosso modelo no nosso livro aqui citado), o livro resenhado é indispensável para aqueles que desejam saber como fazer crescer, ou escalar, suas empresas.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre scale-ups e HGFs, não hesite em nos contatar!

(*) A evidência anedótica é aquela baseada apenas em observação pessoal, coletada de maneira casual ou não sistemática.

(**) São propriedades técnicas de uma coleta e tratamento de empresas.