Como comentado na newsletter da semana passada, em artigo recente, intitulado “The Plaza Accord and Its Relevance for China” (O Acordo Plaza e Sua Relevância para a China), de 25-09-2026, o economista Michael Pettis (especialista sobre a economia da China) afirmou que em reuniões recentes na Europa e nos EUA tem havido o ressurgimento de discussões sobre se a China deveria ou não apreciar sua moeda em resposta aos seus enormes excedentes comerciais.
Como parte desta discussão, analistas frequentemente apontam para as similaridades entre a China e o Japão durante os preparativos para o Acordo Plaza de setembro de 1985. Em resposta a essas discussões, no entanto, Pequim tem insistido que a China nunca irá tolerar um cenário onde a China desempenha o papel uma vez desempenhado pelo Japão.
Sendo assim, o artigo acima citado de Michael Pettis é fundamentalmente uma reinterpretação do Acordo Plaza e, através dele, uma advertência sobre como a China deveria lidar com seu enorme excedente externo. Seu argumento central é que o Acordo Plaza não causou as “décadas perdidas do Japão”; mas sim, as respostas de políticas de ajuste do Japão causaram!
Desta forma, e devido à importância da China nas atuais questões dos desequilíbrios do comércio global, bem como das finanças internacionais, esta newsletter decidiu explicitar em duas partes, o que de fato foi o Acordo Plaza, e porque a China não deveria temer aquele evento. Logo, vamos à parte final do argumento do Pettis.
7. Por que a China é o verdadeiro assunto do artigo
O artigo de Pettis não é realmente sobre o Japão. É sobre a China em 2026.
Pettis vê fortes semelhanças:
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Japão pré-Plaza |
China hoje |
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Grande superávit externo |
Superávit externo muito grande |
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Consumo doméstico fraco |
Consumo fraco relativo ao PIB |
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Alta poupança |
Alta poupança |
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Alto investimento |
Investimento muito alto |
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Dependência de exportações |
Forte dependência de exportações |
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Superávit manufatureiro |
Excesso de capacidade manufatureira |
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Repressão financeira |
Crédito estatal/intermediação financeira forte |
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Risco de investimento excessivo |
Excesso em imóveis, infraestrutura e manufatura |
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Pressão por ajuste cambial |
Pressão por apreciação do RMB |
A principal semelhança não é apenas a taxa de câmbio.
É a estrutura da demanda.
A China produz mais do que seu setor doméstico de famílias absorve, então o excedente deve ser absorvido por: investimento + exportações.
8. O alerta de Pettis para Pequim
Pettis essencialmente diz: A China não pode evitar o reequilíbrio para sempre. Ela tem três possibilidades:
A. Aumentar o consumo das famílias
Transferir uma parcela maior da renda nacional para as famílias.
Isso significa:
renda das famílias ↑ → consumo ↑ → demanda doméstica ↑ → dependência de exportações ↓ → dependência de investimento ↓
Este é o ajuste que Pettis considera mais saudável.
B. Continuar o crescimento liderado por investimento
A China poderia responder a exportações mais fracas com mais: infraestrutura; capacidade manufatureira; imóveis; crédito; e investimento industrial. Mas isso arrisca criar ainda mais excesso de capacidade e dívida.
C. Permitir que o crescimento desacelere
Se a China não aumentar o consumo e não quiser ainda mais investimento excessivo, então a produção deve desacelerar. Para Pettis, a questão é sobre quem arca com os custos do ajuste, não sobre se o ajuste ocorrerá.
9. A frase mais importante para nosso framework (tratado no Grupo de Finanças Digitais da UFPE)
Para nossas discussões sobre desequilíbrios globais, metamorfose do dólar, China Shock e financiamento do Tesouro, o insight mais importante de Pettis é:
Desequilíbrios externos são, em última instância, desequilíbrios internos de distribuição de renda e composição da demanda.
A identidade da conta corrente é:
CA = S − I
mas Pettis pergunta por que a poupança é tão alta, o consumo tão baixo e o investimento tão elevado.
Para a China:
CAChina > 0
não é apenas um fenômeno cambial.
Reflete algo como:
Produção > Consumo Doméstico
com o excedente absorvido por:
Exportações + Investimento.
Portanto, o ajuste não pode ser alcançado apenas com uma mudança RMB/USD.
Ele exige mudar:
Distribuição de renda → Consumo → Investimento → Balança comercial
10. Por que isso é relevante para nossa discussão sobre o “China squeeze”
O debate convencional dos EUA é:
China exporta demais → bens chineses substituem produção estrangeira → déficit comercial aumenta → manufatura dos EUA sofre.
Pettis vai um nível mais fundo:
Por que a China precisa exportar tanto?
Sua resposta: a estrutura de demanda doméstica da China é incapaz de absorver sua enorme capacidade produtiva. Portanto, o excesso de oferta chinesa precisa ir para algum lugar.
Se o resto do mundo se torna menos disposto ou capaz de absorvê-lo, a China enfrenta um problema de ajuste. Isso cria o perigo central:
demanda externa cai → Pequim responde com mais investimento → capacidade aumenta ainda mais → pressão exportadora aumenta → tensões comerciais globais aumentam.
Isso é muito próximo do debate contemporâneo sobre excesso de capacidade da China.
11. A implicação interessante para os EUA
Pettis desafia uma resposta simplista dos EUA.
Se os EUA dizem:
“China tem um enorme superávit comercial, então deveria apreciar o RMB.”
isso aborda apenas um componente.
O ajuste mais profundo exige que a China aumente o poder de compra e o consumo das famílias.
Portanto, a questão não é apenas:
RMB/USD?
mas:
Quem recebe a renda da China?
e:
O que a China faz com seu excedente produtivo?
Isso conecta Pettis muito mais ao debate sobre excesso de poupança global do que a um argumento cambial convencional.
12. Uma conexão importante com Torsten Slok
Aqui Pettis se encaixa bem no material de Slok que discutimos.
Slok enfatiza a transição de um mundo de poupança abundante para um mundo onde a demanda por investimento — especialmente em IA — absorve enormes quantidades de capital.
Pettis descreve quase o lado oposto da equação global:
China: poupança enorme + investimento enorme + capacidade produtiva enorme + consumo doméstico insuficiente.
EUA: consumo relativamente alto + grandes necessidades de investimento + grandes necessidades de financiamento fiscal.
Isso cria um mecanismo global fascinante:
Excesso de poupança/produção da China → fluxos globais de capital/comércio → déficit externo dos EUA
enquanto o boom de investimento em IA cria:
Demanda de investimento nos EUA → absorção de capital → juros mais altos → pressão sobre a alocação global de poupança
Por isso o artigo de Pettis se encaixa diretamente no nosso framework de “metamorfose do dólar / desequilíbrios globais / financiamento do Tesouro”.
Conclusão
Pettis não argumenta que os EUA deveriam impor um novo Acordo Plaza à China.
Seu argumento mais profundo é:
A China não deve temer o ajuste representado pela apreciação cambial ou pela queda da dependência de exportações. Deve temer responder ao ajuste como o Japão — usando crédito barato e investimento para preservar um modelo de crescimento insustentável.
O verdadeiro ajuste chinês é:
Exportações + Investimento → Renda das Famílias + Consumo
E o perigo é:
Demanda externa fraca → mais crédito → mais investimento → mais excesso de capacidade → ajuste futuro maior.
Esse é o núcleo do argumento de Pettis!
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre a economia chinesa, não hesite em nos contatar!
