Os conceitos do Primeiro Choque da China e do Segundo Choque da China se referem a duas fases distintas do impacto da China sobre a economia global. Embora ambos envolvam a ascensão chinesa, eles operam por mecanismos muito diferentes. O primeiro choque nós discutimos aqui na newsletter Industrializar, Desindustrializar, Reindustrializar (parte 1), publicada em ). O segundo vem sendo tratado por alguns poucos autores e instituições.

A Tabela à frente faz uma síntese comparativa dos principais aspectos desses dois choques. Em seguida examinamos, de forma breve, alguns das características definidoras dos dois choques para, na sequência, tratarmos porque o segundo choque é potencialmente mais importante, finalizando com as principais respostas de políticas. Em próxima newsletter podemos examinar os dois choques à luz de nossa Teoria da Economia Informacional – TEI.

Tabela 1: Comparativo dos dois choques
DimensãoPrimeiro Choque da China (≈1990–2015)Segundo Choque da China (≈2020–presente)
Motor principal Integração da China ao comércio global Domínio tecnológico e industrial da China
Mecanismo Exportação de bens manufaturados baratos Exportação de manufaturas avançadas e excesso de capacidade industrial
Vantagem comparativa Mão de obra de baixo custo Escala, automação, apoio estatal, inovação e cadeias de suprimentos integradas
Posição da China “Fábrica do Mundo” Superpotência tecno-industrial global
Principal preocupação Desindustrialização em economias avançadas Perda de liderança em indústrias estratégicas
Produtos típicos Têxteis, móveis, brinquedos, montagem de eletrônicos Veículos elétricos, baterias, painéis solares, hardware de IA, robótica, telecom
Principais vítimas Trabalhadores industriais em economias desenvolvidas Ecossistemas industriais inteiros em economias desenvolvidas e emergentes
Resposta de política Ajuste comercial limitado Política industrial, subsídios, tarifas, controles de exportação, reshoring

1. O Primeiro Choque da China

Este conceito está mais associado ao trabalho dos economistas David Autor, David Dorn e Gordon Hanson (ver newsletter de Industrializar, Desindustrializar, Reindustrializar (parte 1), publicada em ).

Características definidoras:

  • A entrada da China na OMC em 2001 acelerou as exportações.
  • Centenas de milhões de trabalhadores de baixa remuneração ingressaram na manufatura global.
  • Produtos chineses tornaram-se dramaticamente mais baratos do que a produção doméstica em muitos países.
  • O emprego industrial caiu acentuadamente em partes dos EUA e da Europa.
  • O mecanismo central era a competição comercial.

Principais efeitos econômicos:

  • preços mais baixos para consumidores,
  • lucros corporativos mais altos,
  • menor poder de barganha dos trabalhadores,
  • desindustrialização regional,
  • aumento da desigualdade de renda.

Nessa fase, a China principalmente montava produtos projetados em outros lugares, importando muitos componentes e tecnologias de alto valor.

2. O Segundo Choque da China

O Segundo Choque da China é fundamentalmente diferente.

A China não compete mais principalmente com base em salários. Agora ela compete por meio de:

  • enorme escala de manufatura,
  • produção altamente automatizada,
  • cadeias de suprimentos verticalmente integradas,
  • forte investimento em P&D,
  • subsídios industriais,
  • grandes mercados domésticos que permitem rápida expansão,
  • liderança em vários setores de energia limpa e manufatura avançada.

A preocupação já não são camisetas baratas.

Agora é a capacidade da China de dominar indústrias que economias avançadas esperavam liderar, como:

  • veículos elétricos,
  • baterias,
  • equipamentos fotovoltaicos,
  • turbinas eólicas,
  • robótica industrial,
  • drones,
  • equipamentos de telecomunicações,
  • diversas categorias de manufatura avançada.

O mecanismo é competição de capacidade industrial, não competição de custo de mão de obra.

3. Por que o Segundo Choque é Potencialmente Mais Importante

O primeiro choque afetou principalmente o emprego.

O segundo afeta a capacidade produtiva em si.

Os países agora temem perder:

  • liderança tecnológica,
  • know-how de manufatura,
  • cadeias de suprimentos estratégicas,
  • ecossistemas de inovação,
  • influência geopolítica.

Por isso muitos governos estão adotando políticas industriais para preservar ou reconstruir capacidades domésticas.

4. Respostas de Política

As respostas de política também são muito diferentes.

Após o Primeiro Choque, governos enfatizaram:

  • requalificação de trabalhadores,
  • assistência de ajuste comercial,
  • aceitação da globalização como amplamente benéfica.

Durante o Segundo Choque, governos passaram a adotar:

  • tarifas,
  • subsídios industriais,
  • reshoring e friend-shoring,
  • controles de exportação,
  • triagem de investimentos,
  • compras estratégicas,
  • diversificação de cadeias de suprimentos.

Exemplos incluem o CHIPS Act dos EUA, o Inflation Reduction Act, as iniciativas industriais de energia limpa da UE, e medidas semelhantes no Japão, Coreia do Sul e Índia.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre os Choques I e II da China, não hesite em nos contatar!