Em março do corrente ano tivemos a oportunidade de compartilhar (no Grupo de Finanças Digitais da UFPE) um post intitulado “Lesson´s from China´s AI plans”. Este interessante post, escrito pelo indiano Nishant Sahdev, parece ter utilizado como fonte o documento intitulado “Full Stack: China´s Evolving Industrial Policy for AI’, produzido no ano passado pela RAND Corporation.

Em termos bastante sintéticos, Sahdev observa, entre várias coisas, que a China parece estar construindo a infraestrutura para tratar dados como um recurso nacional para inteligência de máquina, ao dar ênfase a uma estratégia específica: a criação e gestão de data exchanges (entidades de câmbio de dados).

Ao apontar que um sistema de IA compreende três ingredientes básicos (chips avançados, talento especializado, e vastas quantidades de dados estruturados), ele registra que os EUA dominam os dois primeiros, e que a China parece estar trabalhando para ganhar hegemonia no terceiro ingrediente para dar conta do enorme potencial de geração de dados de sua economia.

Ao observarmos esta constatação do Sahdev, e ao isolarmos suas demais políticas para os dois primeiros ingredientes (ver o documento da RAND), deparamo-nos com várias questões ainda não devidamente respondidas, tais como a natureza comparativa dos regimes de dados dos EUA e da China (e de outras regiões do planeta), bem como sobre a natureza das políticas industriais desenhadas para atingir os objetivos pretendidos por aquelas nações.

Desta forma, fizemos o seguinte exercício inicial com auxílio do ChatGPT: uma comparação entre a iniciativa chinesa de tratar dados como “fator de produção” (via sua National Data Administration - NDA, como citado nos documentos acima referidos) e a iniciativa de Open Finance do Banco Central do Brasil.

Esta comparação é particularmente rica sob a perspectiva da nossa Teoria da Economia Informacional - TEI, uma vez que as duas iniciativas incorporam ontologias institucionais fundamentalmente distintas para os dados:

  • China → dados como ativo macroprodutivo (fator de produção coordenado pelo Estado)
  • Brasil → dados como direito em nível micro + infraestrutura de mercado (portabilidade centrada no consumidor).

O resultado foi estruturado em uma comparação em cinco camadas analíticas: Status ontológico dos dados, Mecanismo de coordenação, Unidade de análise, Finalidade do sistema, e Filosofia institucional. O exercício termina com uma comparação via TEI, explicitando: Natureza da criação de valor, Expectativas e estrutura informacional, Papel das plataformas, Funções de produção implícitas, e, finalmente, síntese comparativa.

Comecemos, então, a apresentação dos resultados, da seguinte forma:

  1. Status ontológico dos dados

    China – Dados como fator de produção

    Sob a National Data Administration, a China define explicitamente os dados como um fator central de produção, ao lado de trabalho, capital e terra.

    • Dados são tratados como insumo nas funções de produção nacionais
    • Estão incorporados à política industrial e à estratégia de crescimento
    • Estão ligados à capacidade estatal e à segurança nacional

    Isso não é apenas retórico: desde 2020, a política chinesa classifica formalmente os dados como fator de produção e cria instituições para alocá-los, precificá-los e mobilizá-los.

    👉 Em termos de TEI:

    Dados são um recurso econômico primário, não apenas um subproduto informacional.

    Brasil – Dados como ativo controlado pelo consumidor

    Sob o Banco Central do Brasil, o Open Finance trata os dados como:

    • pertencentes/controlados pelo usuário
    • compartilhados mediante consentimento
    • utilizados para melhorar resultados de mercado (competição, inclusão)

    O sistema permite que clientes portem seus dados financeiros entre instituições via APIs e terceiros.

    👉 Em termos de TEI:

    Dados são um ativo relacional incorporado aos agentes, não um insumo agregado de produção.

  2. Mecanismo de coordenação

    China: Mercados de dados coordenados pelo Estado

    O papel da NDA é:

    • coordenar a infraestrutura de dados
    • viabilizar troca de dados entre setores
    • padronizar mercados e mecanismos de negociação de dados

    Isso implica:

    • alocação quase planejada dos fluxos de dados
    • criação de bolsas de dados apoiadas pelo Estado
    • integração com a política industrial

    👉 Mecanismo:

    Orquestração top-down dos fluxos de dados

    Brasil: Compartilhamento de dados coordenado pelo mercado

    O Open Finance opera via:

    • APIs padronizadas
    • acesso regulado por terceiros
    • competição entre fintechs e bancos

    Objetivos explícitos:

    • aumentar a concorrência
    • melhorar a eficiência em crédito e pagamentos
    • fomentar inovação

    👉 Mecanismo:

    Mercados de dados descentralizados baseados em consentimento

  3. Unidade de análise

    China: Macro / sistêmica

    • Dados agregados em escala nacional
    • Foco: modernização industrial, IA, cidades inteligentes
    • Dados como recurso estratégico nacional

    👉 Interpretação TEI:

    O agente relevante é o nexo Estado-plataformas

    Brasil: Micro / agente

    • Dados originam-se das histórias financeiras individuais
    • Foco: crédito, serviços financeiros, personalização
    • Dados fragmentados, porém, interoperáveis

    👉 Interpretação TEI:

    O agente relevante é o consumidor inserido em ecossistemas de plataformas

Em função da extensão da análise, decidimos continuar as camadas analíticas finais (Finalidade do sistema, e Filosofia institucional), bem como a comparação final, via TEI, na próxima newsletter. Adiantamos também que, pelo excelente resultado da análise, nós estendemos o exercício e incorporamos os regimes de dados dos EUA e da Comunidade Europeia, o que nos remeteu a uma comparação mais abrangente do tratamento dos dados nestas diferentes instâncias geográficas.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre a economia dos dados na Era da IA, não hesite em nos contatar!