Na newsletter de Choque da China I e Choque da China II, publicada em  tratamos dos choques da China I e II apontando quais seriam suas principais diferenças e mecanismos. Apesar de explicitarmos seus principais aspectos, deixamos em aberto as explicações correntes mais aprofundadas sobre as razões pelas quais tais choques ocorreram.

Uma das narrativas mais recorrentes é aquela que foi publicada no livro “Trade Wars Are Class Wars: How Rising Inequality Distorts the Global Economy and Threatens International Peace” (Guerras de Comércio São Guerras de Classes: Como Crescente Desigualdade Distorce a Economia Global e Ameaça a Paz Internacional), publicado em 2020 pelos economistas Matthew C. Klein e Michael Pettis.

Os autores desafiam a visão convencional de que conflitos comerciais surgem principalmente da competição entre nações. Em vez disso, eles argumentam que desequilíbrios comerciais globais persistentes são, fundamentalmente, consequência da desigualdade de renda doméstica e da distribuição distorcida de renda dentro dos países. Em outras palavras, as “guerras comerciais” de hoje são, na verdade, a manifestação internacional de “guerras de classe”.

Qual é a Tese Central do livro?

O livro argumenta que países com grandes superávits comerciais persistentes (como China e Alemanha nos anos 2000) não alcançam esses superávits simplesmente por serem mais produtivos ou competitivos. Em vez disso, seus sistemas econômicos suprimem o consumo doméstico ao transferir renda das famílias para corporações, governos ou elites ricas.

Isso cria um mecanismo macroeconômico simples: as famílias recebem uma parcela muito pequena da renda nacional => o consumo doméstico se torna insuficiente => a poupança nacional excede as oportunidades de investimento interno => a produção excedente precisa ser exportada => a poupança excedente flui para o exterior por meio de exportações de capital.

Outros países — especialmente os EUA — precisam absorver tanto os bens excedentes quanto o capital excedente, gerando déficits comerciais e aumento do endividamento.

Assim, os desequilíbrios comerciais se originam dentro dos países antes de aparecerem entre países.

O Desequilíbrio de Poupança

Uma contribuição importante do livro é a ênfase na identidade contábil macroeconômica:

Superávit comercial = Poupança nacional excedente em relação ao investimento doméstico.

Ao invés de focar em tarifas ou taxas de câmbio, os autores sugerem que formuladores de políticas deveriam perguntar: Por que alguns países poupam demais enquanto outros são forçados a consumir demais? A resposta deles é que instituições políticas e distribuição de renda determinam amplamente o comportamento de poupança nacional.

Por que os Estados Unidos Têm Déficits

Os Estados Unidos desempenham um papel especial porque emitem a principal moeda de reserva do mundo e possuem mercados financeiros profundos.

Países com superávit investem sua poupança excedente em ativos financeiros americanos, facilitando que os americanos financiem déficits persistentes em conta corrente. O resultado inclui: aumento da dívida das famílias; inflação de preços de ativos; bolhas financeiras; desindustrialização, e crescente polarização política.

Os autores argumentam que o déficit americano é, portanto, parcialmente o espelho das distorções domésticas dos países com superávit, e não simplesmente consequência de consumo excessivo dos americanos.

China e Alemanha

Klein e Pettis dedicam atenção especial a duas grandes economias superavitárias: China: com alta poupança corporativa, repressão financeira, controle de salários e crescimento liderado por investimentos geraram enormes superávits de exportação. Alemanha: com contenção salarial, conservadorismo fiscal e demanda doméstica fraca criaram poupança excedente crônica dentro da zona do euro.

Embora os mecanismos institucionais sejam diferentes, ambos os modelos dependem da supressão da demanda doméstica, o que acaba transferindo os custos de ajuste para parceiros comerciais.

Por que Tarifas Não São a Solução

Os autores são céticos quanto à capacidade das tarifas de eliminar desequilíbrios comerciais. Se o desequilíbrio estrutural entre poupança e investimento permanecer, tarifas apenas redirecionam o comércio, sem resolver o problema fundamental.

Em vez disso, países deveriam adotar políticas que aumentem o poder de compra doméstico, como: crescimento mais forte dos salários, redução da desigualdade, maior renda das famílias, mais investimento público, e reformas que incentivem o consumo doméstico em vez da dependência de exportações.

Implicações para a Estabilidade Internacional

O livro conclui que desequilíbrios comerciais persistentes geram: instabilidade financeira, populismo político, protecionismo, e tensões geopolíticas crescentes. Sem corrigir as fontes domésticas de desigualdade, disputas comerciais internacionais tendem a se intensificar e ameaçar a cooperação global.

Avaliação Geral

O livro é uma das explicações modernas mais claras sobre a ligação entre distribuição de renda, desequilíbrios macroeconômicos e comércio internacional. Ele combina identidades contábeis nacionais com economia política para argumentar que os problemas da globalização derivam menos do livre comércio em si e mais de como os países distribuem renda internamente.

Sua principal contribuição intelectual é deslocar a atenção de “Por que países competem?” para Por que instituições domésticas geram poupança excedente que transborda para a economia global?”

Essa perspectiva tem sido influente nos debates sobre o modelo de crescimento da China, o superávit externo da Alemanha e as origens estruturais dos déficits comerciais dos EUA.

Relação com nossa Teoria da Economia Informacional - TEI

O livro se alinha naturalmente ao nosso arcabouço, mas também destaca uma limitação que podemos abordar no futuro. Os autores explicam por que surgem desequilíbrios de poupança e comércio por meio da distribuição doméstica de renda, mas dizem relativamente pouco sobre como capacidades informacionais e infraestrutura digital determinam onde a poupança excedente é investida e onde a capacidade produtiva se expande.

Nossa TEI pode complementar essa análise ao tratar infraestrutura informacional, coordenação digital, IA, computação em nuvem e redes de dados como mecanismos que moldam tanto a vantagem comparativa quanto a alocação global de capital.

A partir dessa perspectiva, pode-se estender o argumento dos autores da seguinte forma: guerras comerciais são manifestações de conflitos de classe domésticos; infraestruturas digitais determinam como esses conflitos se traduzem em redes globais de produção e fluxos de capital, e o controle sobre ativos informacionais (plataformas de nuvem, IA, dados, sistemas de pagamento, logística digital) se torna uma nova fonte de superávits comerciais persistentes e influência geopolítica — potencialmente amplificando o “Segundo Choque da China”.

Em resumo, nossa teoria complementa os autores ao adicionar uma dimensão informacional e tecnológica à economia política dos desequilíbrios globais.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre guerras comerciais, não hesite em nos contatar!