Na semana passada começamos a argumentar em favor de uma Política Financeira Inovadora. Apontamos que uma política financeira inovadora é formada por um conjunto de regras, instituições e ferramentas que organizam/coordenam como o dinheiro circula entre governo, sistema financeiro e a economia real. Isto envolve cinco grandes pilares: 1) Gestão da dívida pública (o coração do sistema); 2) Sistema financeiro a serviço da economia real; 3) Coordenação entre Tesouro e Banco Central - BC; 4) Infraestrutura de pagamentos e tecnologia financeira; e, 5) Estabilidade financeira como objetivo central.

Como já tratamos, mesmo que de forma breve, cada um destes pilares de maneira geral, nesta letter vamos conectar o já visto com o que estamos chamando de Brasil real oficial, uma vez que a política financeira não é teoria – é engenharia pesada lidando com várias heranças históricas.

Comecemos, então, pela questão da Dívida Pública Brasileira, o ponto mais sensível. O Brasil tem uma das estruturas de dívida mais macro relevantes do mundo. Seu problema histórico:

  • Grande parte da dívida já foi: i) Indexada à Selic (LTFs) (1); e, ii) Curto prazo.
  • Isso cria um efeito perigoso: o Banco Central sobe os juros, e, por consequência, o custo da dívida explode quase na hora.

Ou seja, a política monetária bate direto no fiscal.

O esforço moderno do Tesouro nas últimas décadas tem sido: i) Alongar prazos; ii) Aumentar prefixados (LTN/NTN-F) (2); iii) Aumentar indexados à inflação (NTN-B) (3); e, iv) Reduzir dependência de títulos atrelados à Selic. Isso é política financeira moderna na prática: mudar a arquitetura da dívida para dar mais liberdade ao Banco Central e reduzir a fragilidade fiscal.

Uma segunda questão é a dos bancos públicos como instrumento financeiro do Estado. Em países desenvolvidos o mercado de capitais financia o longo prazo. No Brasil, historicamente, quem fez isso foram: o BNDES (investimento produtivo); a Caixa Econômica Federal (habitação e infraestrutura urbana), e o Banco do Brasil (crédito agrícola).

Isso não é anomalia, é característica de países com juros historicamente altos e mercado de capitais tardio. Uma política financeira inovadora não é acabar com isso, mas sim fazer com que bancos públicos atuem de forma anticíclica e estratégica, sem distorcer o mercado nem virar política de crédito descontrolada.

Uma terceira questão é aquela dos juros altos, dívida e armadilha macrofinanceira. O Brasil vive um dilema clássico: a inflação sobe => o BC aumenta os juros => a dívida cresce mais rápido => o mercado exige prêmio maior => juros neutros (4) sobem. Isso vira um equilíbrio ruim auto reforçado.

A política financeira inovadora aqui envolve: i) Melhorar a credibilidade fiscal (não é só cortar gastos, é previsibilidade); ii) Reduzir indexações automáticas na economia; iii) Fortalecer o mercado de prefixados (confiança no futuro). Isso diminui a sensibilidade explosiva da dívida aos juros.

Uma quarta e importantíssima questão é a do PIX, DREX e da revolução na infraestrutura financeira. Aqui o Brasil é caso de vanguarda mundial. Tomando o PIX como referência, ele: i) Reduziu custo de transação; ii) Diminuiu dependência de cartões; iii) Aumentou a competição bancária; e, iv) Formalizou milhões de pessoas. Isso é política financeira inovadora porque muda a estrutura do sistema financeiro e como o dinheiro circula.

Já o DREX (a infraestrutura do Real Digital), se funcionar como planejado: i) Pode permitir liquidação de ativos tokenizados; ii) Reduzir custos de crédito com garantias digitais; iii) Integrar mercado financeiro e sistema de pagamentos. Isso conecta tecnologia com política monetária e estabilidade financeira.

A quinta questão é a do mercado de capitais ainda em construção. Quando comparado a países ricos temos:

AspectoBrasilPaíses desenvolvidos
Crédito de longo prazo Muto bancário Muito via mercado
Debêntures/ações Crescendo, mas limitado Central
Funding de infraestutura Público/bancos Mercado institucional

Uma política financeira inovadora no Brasil envolveria: i) Desenvolver mercado de capitais; ii) Atrair poupança de longo prazo (previdência, fundos); iii) Criar instrumentos para infraestrutura e inovação. Ou seja, menos dependência do balanço do Estado, e mais profundidade financeira.

Uma questão final, porém, não menos importante, é a da regulação e da estabilidade. Depois das crises dos anos 80-90, o Brasil ficou mais conservador na regulação bancária. Hoje há: i) Bancos bem capitalizados; ii) Supervisão ativa do BC; e, iii) Sistema resistente a choques externos.

Isso é parte essencial da política financeira inovadora: evitar crises sistêmicas que destroem décadas de crescimento. Em resumo, uma política financeira inovadora no Brasil é uma tentativa de sair de um sistema moldado pela inflação crônica e crises fiscais para um sistema estável, profundo e menos dependente de juros altos e do balanço do Estado.

Na próxima newsletter vamos explorar qual das “travas” de coordenação é a mais difícil de remover hoje (fiscal, monetária ou financeira), porque elas se retroalimentam.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre políticas financeiras inovadoras, não hesite em nos contatar

  1. Letras Financeiras do Tesouro
  2. Notas do Tesouro Nacional Série F
  3. Notas do Tesouro Nacional Série B
  4. Taxa de juros teórica que não estimula nem desacelera a economia, mantendo o crescimento em seu potencial sem gerar pressões inflacionárias ou deflação