Nas primeiras newsletters deste ano estivemos argumentando que o Brasil é um país “descoordenado”: tem uma Constituição que foi excelente para coordenar a transição democrática, mas que é mediana para coordenar desenvolvimento e reformas, e é fraca para coordenar a eficiência do Estado. Ao mesmo tempo, temos um contexto macroeconômico de limitação da coordenação monetária, associado a um preocupante quadro de descoordenação fiscal.

Em função deste diagnóstico, a partir desta letter queremos argumentar não em termos tradicionais de uma “nova” política monetária, ou de uma “nova” política fiscal, mas sim em favor de uma Política Financeira Inovadora. E o que, afinal, estamos definindo como uma “política financeira inovadora”?

É o conjunto de regras, instituições e ferramentas que organizam/coordenam como o dinheiro circula entre governo, sistema financeiro e a economia real. Num país hoje, isso envolve cinco grandes pilares: 1) Gestão da dívida pública (o coração do sistema); 2) Sistema financeiro a serviço da economia real; 3) Coordenação entre Tesouro e Banco Central; 4) Infraestrutura de pagamentos e tecnologia financeira; e, 5) Estabilidade financeira como objetivo central.

Vamos tratar brevemente de cada um destes pilares de forma geral para depois conectarmos com o Brasil real oficial, e, em seguida, vamos explorar qual das “travas” de coordenação é a mais difícil de remover hoje (a fiscal, a monetária ou a financeira), porque elas se retroalimentam.

Gestão da dívida pública

Um Estado moderno não “evita dívida” – ele administra a dívida como instrumento de política econômica (1). Uma política financeira inovadora significa:

  • Perfil de dívida estável (mais longo prazo, menos sustos de refinanciamento)
  • Predominância de dívida em moeda local (menos vulnerável a crises cambiais)
  • Mercado de títulos profundo e líquido (Tesouro consegue se financiar sem depender de bancos específicos)
  • Coordenação com o Banco Central para evitar que a estrutura da dívida atrapalhe a política monetária.

Ou seja, a dívida vira uma infraestrutura financeira, e não apenas um problema contábil.

Sistema financeiro a serviço da economia real

Não basta ter bancos grandes – é preciso que o sistema financeiro:

  • Financie investimento produtivo, não só consumo e especulação
  • Tenha mercado de capitais funcional (debêntures, ações, FIDCs etc.)
  • Ofereça crédito de longo prazo
  • Seja competitivo, com menos concentração bancária
  • Tenha regulação prudencial forte (para evitar crises)

A política financeira inovadora aqui significa desenhar regras que direcionem liquidez para crescimento, não só para bolhas de ativos.

Coordenação entre Tesouro e Banco Central

Em tempos passados se pensava que políticas fiscal e monetária deviam ser “separadas”. Hoje se entende que:

  • A forma da dívida pública afeta os juros
  • Juros altos aumentam o gasto com dívida => afetam o fiscal
  • O Banco Central depende de um mercado de títulos bem estruturado para operar.

Uma política inovadora reconhece que o fiscal, o monetário e a gestão da dívida são partes de um mesmo sistema macrofinanceiro. Não é submissão de um ao outro – é coordenação institucional com papeis claros.

Infraestrutura de pagamentos e tecnologia financeira

Hoje política financeira também é:

  • PIX, sistemas de pagamentos instantâneos
  • Moeda digital de Banco Central (CBDC, como o DREX)
  • Open Finance
  • Regulação de fintechs, stablecoins, bitcoin e cripto.

Isso reduz custo de transação, aumenta inclusão financeira e melhora a transmissão da política monetária. Ou seja, sistema de pagamentos virou política econômica, e não só tecnologia.

Estabilidade financeira como objetivo central

Depois das crises de 2008 e outras, ficou claro que não adianta inflação baixa se o sistema financeiro quebra. A política financeira inovadora inclui: a) Regulação macroprudencial (limites de alavancagem, capital bancário); b) Monitoramento de bolhas de crédito e ativos; c) Supervisão de “bancos sombra”; e, d) Mecanismos de resolução de crise bancárias. Isto é, evitar crises é tão importante quanto reagir a elas.

Resumindo, uma política financeira inovadora é quando o país entende que o sistema financeiro não é só um intermediário neutro – ele é parte da engrenagem macroeconômica. A questão não é só “austeridade” nem só “gastar mais”. É desenhar o sistema financeiro para sustentar crescimento, estabilidade e soberania econômica ao longo do tempo.

Na próxima newsletter vamos explorar tudo isso conectando com o Brasil real oficial!

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre políticas financeiras inovadoras, não hesite em nos contatar

  1. Este é o principal argumento do economista Michael Howell, o padrinho do termo “Global Liquidity”, autor do livro “Capital Wars: The Rise of Global Liquidity”, que já resenhamos aqui na newsletter de .