Na newsletter da semana passada iniciamos uma discussão sobre a “Dollar Milkshake Theory - DMT”, desenvolvida já há alguns anos por Brent Johnson, CEO e Gestor de Portfólio da Santiago Capital, conselheira de investimentos baseada em Porto Rico, e empresa criada por ele depois de uma carreira no Credit Suisse.

De forma bem resumida, a teoria é um “arcabouço que vê a crise da moeda global, e da dívida soberana, manifestando-se”. Segundo seu autor, “o atual sistema monetário internacional vai chegar a um fim, e isso ocorrerá por conta da força do dólar, e não por sua fraqueza”. Por razões históricas, os EUA criaram condições estruturais para que o dólar se tornasse a moeda de reserva global, tornando-se uma moeda dominante para financiamento do comércio mundial. Sendo assim, sugando com um “canudo” o “milkshake da liquidez” global, os EUA e o dólar continuam, e continuarão a deter essa hegemonia monetária até que essa “complexa arquitetura monetária” seja substituída por outra.

Diante deste arcabouço, pergunta-se: quais são as implicações desse complexo “mecanismo monetário global” para as criptomoedas? Muito embora seja prematuro qualquer avaliação aprofundada neste assunto, uma maneira rápida de responder tal questionamento é a de se apoiar na visão atual do BIS – Bank for International Settlements, considerado o Banco Central dos Bancos Centrais do mundo. Segundo o BIS (1), a década passada se caracterizou pelo fenomenal interesse em criptomoedas e finanças descentralizadas (conhecidas pelo acrônimo DeFi - de Decentralized Finance) pelo público em geral, negócios e participantes do mercado financeiro.

A partir de sua inserção como um relativo nicho e uma misteriosa inovação financeira e tecnológica, as criptomoedas e os produtos da nova DeFi começaram a desempenhar um crescente papel no ecossistema financeiro. Investidores em busca de oportunidades alternativas de investimento em um ambiente de baixo rendimento ajudaram a lubrificar valoração de mercado de alto recorde, a despeito da alta volatilidade de mercado (Gráfico 1), e estimularam a emergência de várias iniciativas de cripto nos anos recentes.

Ampla evidência anedótica aponta para investimentos crescentes em criptomoedas e tecnologias que lhes dão suporte por corporações não-financeiras e novas startups financeiras. Além disso, a emergência de Exchange-traded funds (ETFs) para Bitcoin e derivados associados podem pavimentar o caminho para mais engajamento de investidores. Mais recentemente, a guerra na Ucrânia provocou interesse em criptomoeda e levantou questões sobre sua supervisão regulatória.

Contra este pano de fundo, o BIS aponta que o setor público começou a considerar implicações possíveis para a estabilidade financeira, e a avaliar a efetividade e necessidade de ajustes regulatórios, incluindo questões relacionadas com arcabouços prudenciais. Adicionalmente, a crescente demanda de investidores por criptomoedas também levanta a questão de como a elevação resultante em demanda por serviços intermediários será encontrada por instituições financeiras.

O BIS, então, se pergunta: o crescimento em atividade de criptomoedas ao longo dos últimos anos ocorreu primariamente no interior dos nós tradicionais do sistema financeiro, tais como bancos? Ou a emergência de novos nós, mais notadamente novas exchanges, tem facilitado o boom em criptomoedas? O documento do BIS (1) endereça tais questões ao olhar para a evolução das exposições da criptomoeda a ambos os tipos de nós.

A análise do BIS indica três implicações de políticas, aqui resumidas da seguinte forma. Primeiro, um novo conjunto de participantes do mercado emergiu e merece regulação mais próxima e escrutínio supervisório. Segundo, há necessidade de endereçar o crescente hiato de dados na indústria. Terceiro, o potencial para muitas interconexões entre os novos intermediários de criptomoedas e o mainstream do setor financeiro requer um enfoque compreensivo para avaliar e mitigar riscos.

Do ponto de vista da Creativante, pautando-nos pelo breve relato aqui exposto, é possível argumentar que ainda há um longo caminho pela frente para imaginar que o emergente ecossistema das criptomoedas possa representar uma ameaça para a complexa arquitetura monetária internacional (polarizada pelo dólar), como “imaginado” pelos adeptos do “American-style techno-libertarianism” (ver newsletter de 27-02-2022), que estiveram na origem das criptomoedas, e que defendem a causa da “descentralização” do sistema monetário internacional.

Muito ao contrário, visualizamos que o novo ecossistema das criptomoedas vai ser gradualmente absorvido pelo mainstream do setor financeiro. E a razão para esta crença se apoia no fato de que o ecossistema cripto não detém, ainda, uma camada de governança global [que chamaríamos de “Hard + Soft + Cyber Power” (2), na ausência de um termo melhor] tal como aquela criada que foi desenhada e implementada pelos EUA, através do dólar, ao longo de anos.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre a “Dollar Milkshake Theory”, não hesite em nos contatar!

  1. Auer, Raphael; Mark Farag; Ulf Lewrick; Lovrenc Ozarem e Markus Zoss (2022). “Banking in the shadow of Bitcoin? The institutional adoption of cryptocurrencies”. BIS Working Paper No. 1013. Monetary and Economic Department, May.
  2. Termos cunhados de forma pioneira pelo Prof. Joseph S. Nye Jr., da Kennedy School of Government, da Harvard University nos EUA (ver newsletter de 04-08-2013).

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