Nesta série de letters, publicadas em , e , estivemos focando nossa atenção no Brasil; no entanto, naquelas oportunidades adotamos um olhar diferenciado: a partir da ótica do que em Economia denominamos como “Coordination Problem” (Problema de Coordenação).

Sendo assim, apontamos o que é o conceito de problema de coordenação, tratamos de uma questão associada (a dos custos de cooperação), e passamos a argumentar que dois instrumentos da Sociedade e da Economia, a Constituição e a Moeda, são poderosos dispositivos de coordenação, ainda não devidamente compreendidos como tal, e que ambos estão na base do que estamos conceituando por um “país descoordenado”!

Como já tratamos do instrumento da Constituição (e da Constituição Brasileira de 1988 em particular), desta feita vamos tratar do instrumento da Moeda. A ideia da moeda como um dispositivo de coordenação foi recentemente recuperada pelo economista Hyun Song Shin, Consultor Econômico e Chefe do Departamento Econômico e Monetário do BIS- Bank for International Settlements (o banco central dos bancos centrais).

Shin conceitua a moeda não apenas como um meio de troca ou uma unidade de conta, mas fundamentalmente como um mecanismo de coordenação que alinha expectativas e planos ao longo de atores econômicos descentralizados. Em outras palavras:

  • A moeda possibilita indivíduos e empresas separados a coordenarem suas decisões sobre produção, troca, poupança e obrigações de pagamentos.
  • Esta coordenação ocorre porque cada um compartilha conhecimento comum sobre o valor da moeda – tal como uma linguagem que torna os planos econômicos compatíveis.
  • Sem esse ponto de referência comum, compartilhado, a atividade econômica descentralizada falharia em sincronizar, e os mercados se descontrolariam.

E por que a coordenação importa? Em economias descentralizadas (onde não há um planejador central) as pessoas devem antecipar como os outros irão se comportar:

  • As empresas planejam suas produções baseadas em demandas esperadas.
  • Consumidores decidem o que comprar baseados nos preços estabelecidos por outros.
  • Bancos e investidores produzem decisões de crédito e investimento com crenças sobre retornos e riscos.

A moeda age como o ponto focal que todo mundo toma como referência quando todos formam essas expectativas. Porque o valor da moeda é amplamente aceito, ela reduz a incerteza sobre como os outros irão se comportar, tornando a coordenação possível. Shin destaca um importante mecanismo associado à moeda: os network effects (efeitos de rede):

  • Quanto mais pessoas usam uma particular forma de moeda, mais valiosa ela se torna como dispositivo de coordenação.
  • Isso cria um círculo virtuoso: aceitação ampla leva a uma maior utilidade, o que leva a mais aceitação.
  • Historicamente, bancos centrais têm ancorado essa coordenação ao estabelecerem e defenderem uma unidade monetária comum.

Em resumo, Shin refaz o argumento da moeda de somente “um outro bem econômico” para:

Um mecanismo de coordenação social =>

  • Uma linguagem comum de valor que alinha planos, crenças, e ações ao longo de atores econômicos descentralizados.
  • Sem o papel coordenador da moeda, os mercados lutariam para funcionar porque as expectativas não convergiriam, e os planos econômicos não seriam mutuamente compatíveis.

Tomando como exemplo a moeda do Real do Brasil, como poderíamos analisar esta moeda como mecanismo de coordenação social? Olhando para o Plano Real (que instituiu o Real em 1994), é possível se perguntar: como o Real conseguiu reorganizar as expectativas e alinhar o comportamento dos agentes?

Num contexto de inflação alta (ou quase hiperinflação), o principal problema não é só “preços subindo”. É a descoordenação generalizada: a) Ninguém sabe qual é o “preço relativo verdadeiro”; b) Contratos viram apostas de curtíssimo prazo; c) Empresas e trabalhadores passam a se proteger em vez de produzir; d) A moeda deixa de ser unidade de conta estável; e) O sistema vira um jogo de defesa individual, e não de cooperação produtiva.

Um dispositivo de coordenação bem-sucedido é aquele que: 1) Cria um ponto focal (todos passam a usar a mesma referência); 2) Reduz a incerteza sobre o comportamento dos outros; 3) Permite alongar horizontes de decisão.

O Plano Real foi exatamente isso: uma tecnologia institucional para reancorar expectativas. Em síntese: a) Ele atacou a coordenação, não só a moeda; b) a URV – Unidade Real de Valor foi o coração coordenador; c) Houve uma mudança de regime cambial; d) Um tripé implícito sustentou a coordenação (âncora cambial + ajuste fiscal + política monetária mais disciplinada). Ou seja, a coordenação precisa de crença na continuidade. Sem isso, vira só truque temporário.

E onde o Plano Real brilhou? Ele foi bem-sucedido em três dimensões: 1) Reconstruiu a unidade de conta; 2) Quebrou a inércia sem trauma institucional; e, 3) Reancorou expectativas de médio prazo.

Mas onde o Plano Real, como dispositivo de coordenação, teve limites? A coordenação monetária não resolve tudo. Alguns limites: 1) A Coordenação Fiscal ficou incompleta; 2) O câmbio valorizado como âncora teve um custo; e, 3) A desigualdade estrutural não é resolvida por Coordenação Monetária.

Num resumo desta série, podemos argumentar que temos hoje um Brasil com dois poderosos dispositivos de coordenação que não estão funcionando de maneira adequada (daí avançarmos o termo “um país descoordenado”). Temos uma Constituição que foi excelente para coordenar a transição democrática, mas que é mediana para coordenar desenvolvimento e reformas, e é fraca para coordenar a eficiência do Estado. Ao mesmo tempo, temos um contexto macroeconômico de limitação da coordenação monetária (por exemplo, a nossa Moeda, o Real, vem se desvalorizando de forma perigosa desde 1994, o que concorre para nossa perda de poder aquisitivo) (1), associado a um preocupante quadro de descoordenação fiscal (2).

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre o problema da coordenação na economia, não hesite em nos contatar!

  1. Voltaremos a tratar desta importante questão mais à frente.
  2. A política fiscal brasileira não tem uma âncora intertemporal plenamente crível. Já tentamos várias: i) Meta de superávit primário; ii) Teto de gastos; iii) Novo arcabouço fiscal. Mas todas esbarram na mesma dificuldade estrutural: Rigidez do gasto + conflito distributivo permanente. Grande parte do orçamento é: Previdência; Vinculações constitucionais; Folha salarial; e Benefícios obrigatórios. Isto reduz a capacidade de ajuste sem crise política. Então, o fiscal vira refém de pressões de curto prazo, enquanto a monetária tenta pensar no médio prazo. Resultado: o Banco Central acaba carregando mais peso do que deveria, mantendo juros estruturalmente altos para compensar a incerteza fiscal.