Na newsletter publicada em tratamos do Choque da China I e do Choque da China II. Nesta newsletter trataremos de um terceiro tipo de choque, comumente conhecido como “China Squeeze” (Aperto da China) originado a partir do artigo dos economistas indianos Shoumitro Chatterfee e Arvind Subramanian, intitulado “China Is Pulling Up the Ladder Behind It: How Beijing´s Export Strategy Will Keep Poor Countries Poor” (China Está Puxando a Escada Atrás Dela: Como a Estratégia de Exportação de Pequim Irá Manter os Países Pobres na Pobreza), na revista Foreign Affairs em .
O argumento do aperto da China não pergunta o que aconteceu, ou o que vai acontecer, mas o que poderia ter acontecido. Especificamente, quais opções de desenvolvimento econômico poderiam ter estado abertas para economias do Sul Global, como a Índia ou as economias da África Subsaariana, se não fosse pela espetacular industrialização da China desde o final dos anos 1990 e pela persistente competitividade da manufatura chinesa em segmentos de baixa qualificação.
Em o economista Adam Tooze publicou em seu substack Chartbook 464 o artigo intitulado “The China Squeeze: the politics of development counterfactuals” (O Aperto da China: a política de contrafactuais de desenvolvimento) comentando o artigo dos economistas indianos. Alguns dias depois () foi publicado o artigo The China Squeeze: A response to our critics” (O Aperto da China: Uma resposta aos nossos críticos), no Peterson Institute for International Economics – PIIE, respondendo às críticas (como as de Tooze).
Acompanhando este debate o economista Anthony Lawrence publicou em seu substack Dragonometry uma sequência de três artigos, intitulados: “The China Squeeze debate is missing a bigger historical picture” (O debate sobre o "Aperto da China" deixa de lado um panorama histórico mais amplo), de , “The kids are not alright” (As crianças não estão bem), de , e “China is not just a Dragon running late” (China não é somente um Dragão atrasado), de .
Tomando os artigos acima em conjunto, o debate sobre o “Aperto da China” se torna muito mais interessante do que a proposição original de que a China está simplesmente tirando empregos de manufatura de países mais pobres. Os artigos revelam um debate que opera em três níveis diferentes: a) um fenômeno comercial empírico; b) uma disputa sobre causalidade e; c) mais importante, uma disputa mais profunda sobre o modelo de desenvolvimento que gerou a extraordinária persistência manufatureira da China.
Como o tema é complexo, e seu tratamento demanda uma síntese longa, vamos dividi-lo em etapas nesta e em próximas newsletters.
1. O núcleo do debate
A tese original de Chatterjee–Subramanian é direta:
“A China se tornou dominante demais exatamente naqueles setores de manufatura intensivos em mão de obra que historicamente permitiram que países mais pobres se industrializassem.”
Seu parâmetro empírico é impressionante. Por volta de 2000, a participação da China na mão de obra de baixa qualificação e sua participação nas exportações de valor agregado estavam aproximadamente alinhadas. Entre 2013 e 2023, a participação chinesa nas exportações de valor agregado permaneceu em torno de 64%, enquanto sua participação na força de trabalho relevante caiu. Eles estimam “excesso” de exportações superior a US$ 355 bilhões em 2022 nos setores de baixa qualificação, incluindo cerca de US$ 110 bilhões em vestuário, têxteis, couro e calçados.
O argumento, portanto, não é principalmente sobre a China exportar produtos baratos. É sobre a China continuar a ocupar um espaço de exportação que, segundo seu parâmetro, deveria ter sido cada vez mais acessível a economias mais pobres.
A comparação histórica reforça o ponto: no nível de renda atual da China, as economias avançadas de hoje já haviam abandonado muito mais espaço de exportação em manufaturas de baixa qualificação.
Isso produz a proposição central:
A China subiu a escada tecnológica sem abandonar completamente os degraus inferiores.
2. O contra-argumento de Tooze: não existe “escada”
Adam Tooze ataca o fundamento conceitual, em vez de simplesmente contestar os números. Sua objeção central é que Chatterjee–Subramanian constroem um “caminho canônico” de desenvolvimento que não existe como lei econômica.
A sequência implícita seria:
agricultura → manufatura de baixa qualificação → manufatura de alta qualificação → saída da manufatura de baixa qualificação
Tooze argumenta que o desenvolvimento não opera como uma fila. Países não têm direito a uma participação proporcional da manufatura global de acordo com sua população ou força de trabalho de baixa qualificação. O desenvolvimento é contingente historicamente e construído politicamente.
É uma crítica poderosa.
O parâmetro:
“A China tem manufatura demais porque sua participação nas exportações excede sua participação na força de trabalho”
não é um teorema do comércio internacional. É um parâmetro contrafactual.
E isso importa porque a conclusão “a China está apertando outros países” depende parcialmente da suposição de que, na ausência da dominância chinesa, essas exportações teriam ido para Índia, África, Bangladesh etc.
Tooze, portanto, desloca a questão de:
“Quanto espaço de manufatura a China deveria ter?”
para:
“Por que as empresas chinesas são tão melhores em abastecer redes globais de manufatura?”
3. O mecanismo alternativo de Tooze: a China transformou a manufatura ‘de baixa qualificação’
Este é provavelmente o argumento econômico mais forte de Tooze. A manufatura chinesa não é simplesmente um enorme reservatório de mão de obra barata.
Ela combina:
- redes densas de fornecedores;
- logística;
- clusters industriais;
- automação;
- produção just-in-time;
- velocidade;
- capacidade organizacional;
- escala;
- conhecimento tecnológico acumulado.
Consequentemente, o que parece estatisticamente “manufatura de baixa qualificação” pode, na verdade, incorporar enorme capacidade de coordenação de alto nível. O exemplo clássico é a camiseta.
Uma fábrica chinesa de camisetas não compete com Bangladesh porque os trabalhadores chineses são mais baratos. Os salários chineses no setor de vestuário são agora cerca de quatro vezes os da Índia e cinco vezes os de Bangladesh. Ainda assim, a China permanece extremamente competitiva.
Este é o enigma enfatizado por Tooze:
A vantagem da China vem cada vez mais do sistema ao redor da fábrica, e não do custo do trabalhador dentro da fábrica.
Isso qualifica fortemente a tese original do “Aperto da China”.
4. Mas a resposta de Chatterjee–Subramanian também é poderosa
A resposta deles de diz essencialmente:
“Tooze explicou por que a China permanece competitiva, mas não demonstrou que essa competitividade é inofensiva para industrializadores tardios.”
Essa distinção é crucial. Eles aceitam que a vantagem de produtividade da China pode derivar de:
tecnologia + escala + logística + cadeias de suprimentos + organização.
Mas argumentam que produtividade e distorção não são mutuamente exclusivas.
Eles identificam um segundo possível mecanismo:
vantagens induzidas por políticas, incluindo:
- supressão salarial
- crédito direcionado
- política cambial
- repressão financeira
- apoio estatal
- possivelmente subsídios a terra e energia
E reconhecem explicitamente que a contribuição relativa de eficiência versus distorção não foi estabelecida. Isso é importante porque significa que a versão mais forte da tese original —
“A dominância exportadora da China é principalmente resultado de distorção mercantilista” —
ainda não foi demonstrada.
Mas sua proposição mais fraca é muito mais difícil de descartar:
Independentemente da fonte da competitividade chinesa, suas capacidades acumuladas tornam a entrada de novos competidores mais difícil.
Eles avançam um argumento interessante de “capacidade dinâmica”: redes de cadeia de suprimentos podem aumentar a eficiência hoje enquanto tornam mais difícil para concorrentes adquirir capacidades amanhã.
Esse é, talvez, o ponto mais importante emergindo da troca.
5. O problema empírico de culpar apenas a China: a Índia
Aqui o argumento de Tooze se torna particularmente forte. O Chartbook mostra que China e Índia são quase imagens espelhadas. A China tem uma participação extraordinariamente grande nas exportações manufatureiras. A Índia, com população semelhante, tem uma participação extraordinariamente pequena.
E os próprios Chatterjee e Subramanian escreveram extensivamente sobre isso como falha de desenvolvimento doméstico da Índia.
A evidência é reveladora:
- A participação da China nas exportações globais de vestuário era cerca de 32% em 2022;
- A da Índia era apenas 3,1%;
- Mais importante: a China já havia perdido cerca de 7,5 pontos percentuais desde seu pico, enquanto a Índia permaneceu estagnada;
- Vietnã e Bangladesh ganharam cerca de 3,5–4 pontos percentuais.
Isso é devastador para uma versão simplista da tese do aperto.
Se a retirada da China automaticamente gerasse oportunidades para tardios, a Índia deveria ter se beneficiado muito mais. Não se beneficiou. Portanto:
“A China não é suficiente para explicar o fracasso da industrialização tardia.”
Capacidade doméstica importa enormemente.
Na próxima newsletters daremos continuidade à síntese deste debate do “Aperto da China”.
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre o “Aperto da China”, não hesite em nos contatar!
PS: Agradecemos ao ChatGPT pela ajuda na síntese aqui contida!
