Na newsletter de tratamos de um terceiro tipo de choque chinês (além daqueles Choques I e II já discutidos neste espaço), comumente conhecido como “China Squeeze” (Aperto da China) originado a partir do artigo dos economistas indianos Shoumitro Chatterfee e Arvind Subramanian, intitulado “China Is Pulling Up the Ladder Behind It: How Beijing´s Export Strategy Will Keep Poor Countries Poor” (China Está Puxando a Escada Atrás Dela: Como a Estratégia de Exportação de Pequim Irá Manter os Países Pobres Pobres), na revista Foreign Affairs em .
Este trabalho fez emergir um interessante debate entre economistas que opera em três níveis diferentes: a) um fenômeno comercial empírico; b) uma disputa sobre causalidade e; c) mais importante, uma disputa mais profunda sobre o modelo de desenvolvimento que gerou a extraordinária persistência manufatureira da China.
Como o tema é complexo, e seu tratamento demanda uma síntese longa, nós o dividimos em etapas, tendo já discutido as cinco primeiras. Nesta newsletter damos continuidade com as próximas seis etapas, a seguir.
6. A resposta do PIIE (Peterson Institute for International Economics) concede isso
Este é um dos desenvolvimentos mais importantes do debate.
Chatterjee e Subramanian rejeitam explicitamente o binário:
“China OU falha doméstica”.
Eles argumentam que ambos podem ser verdade:
- melhores capacidades domésticas permitiriam que LMICs – Low and Middle Income Countries (Países de Renda Baixa e Média) competissem mais;
- e, mantendo capacidades constantes, uma competição chinesa mais fraca criaria oportunidades adicionais.
Isso é muito mais defensável. O debate evolui, então, de:
“A China é responsável?”
para:
“Quanto do fracasso industrial é atribuível à competitividade chinesa versus à incapacidade dos tardios de explorar oportunidades?”
Ou seja, uma muito melhor pergunta de pesquisa.
7. Lawrence introduz a variável ausente: a economia política chinesa
Os três artigos de Anthony Lawrence mudam substancialmente o debate.
Seu argumento é essencialmente:
“Nenhum dos lados olha suficientemente para montante”.
Tooze vê a dominância das cadeias de suprimentos como resultado de efeitos de rede acumulados.
Chatterjee–Subramanian veem a persistência chinesa como ocupação incomum de espaço exportador.
Lawrence pergunta:
Por que a China desenvolveu esses efeitos de rede?
Sua resposta é o modelo de desenvolvimento do Leste Asiático.
Ele usa a formulação de Joe Studwell:
Reforma agrária → manufatura disciplinada pela exportação → repressão financeira.
Grande contribuição conceitual.
As cadeias de suprimentos não emergiram espontaneamente. Foram construídas ao longo de décadas de:
- crédito direcionado;
- infraestrutura;
- política industrial;
- alocação de terras;
- disciplina de exportação;
- coordenação estatal.
Ou seja:
“Efeitos de rede” podem ser o mecanismo próximo, enquanto a economia política do Estado desenvolvimentista é o mecanismo profundo.
Isso reconcilia grande parte de Tooze e Chatterjee–Subramanian.
8. A anomalia chinesa: reforma agrária incompleta
A afirmação mais original de Lawrence é que a trajetória chinesa difere de Japão, Coreia e Taiwan porque a China não completou o primeiro estágio do modelo.
A China realizou reforma agrária após 1949, mas a coletivização reverteu grande parte dela. O sistema de responsabilidade familiar após 1978 restaurou incentivos operacionais, mas não estabeleceu propriedade privada transferível da terra.
Isso tem enormes consequências.
Um agricultor japonês, coreano ou taiwanês podia transformar terra em:
ativo → colateral → investimento → empreendedorismo → riqueza familiar → consumo
A família rural chinesa recebeu principalmente um direito de uso.
Assim:
A China criou trabalhadores sem criar plenamente famílias proprietárias de ativos.
Lawrence argumenta que isso ajuda a explicar por que a China pôde manter um enorme contingente de trabalhadores alimentando sua máquina industrial mesmo após enriquecer.
E enfatiza que reformas recentes repetidamente pararam antes de estabelecer propriedade rural transferível.
9. Isso conecta o “aperto da China” ao problema de demanda doméstica
Aqui o terceiro artigo de Lawrence se torna essencial.
O modelo do Leste Asiático gerou uma máquina exportadora extraordinária ao transferir recursos para produtores.
Mas o mesmo mecanismo suprimiu reivindicações das famílias sobre a renda nacional.
As famílias acumularam:
salários
em vez de:
salários + dividendos + juros + ativos transferíveis + transferências sociais.
Quando o crescimento era rápido, isso era tolerável.
Quando desacelera, torna-se estrutural.
Isso cria uma conexão notável entre dois debates aparentemente distintos:
Problema externo: A China exporta demais em relação a países mais pobres.
Problema interno: As famílias chinesas consomem de menos em relação à capacidade produtiva.
Podem ser dois lados da mesma estrutura político-econômica.
10. O paradoxo da China
A extraordinária competitividade manufatureira da China pode ser simultaneamente:
Uma história de sucesso
- produtividade;
- escala;
- cadeias de suprimentos;
- logística;
- upgrading tecnológico;
- preços globais mais baixos.
E um problema sistêmico
- capacidade produtiva excessiva;
- demanda doméstica fraca;
- dependência persistente de exportações;
- pressão sobre produtores estrangeiros;
- redução do espaço de industrialização para tardios.
Por isso o “aperto da China” não pode ser reduzido a:
mercantilismo ou eficiência de mercado pura.
A evidência aponta para uma interação:
Capacidades produtivas criadas pelo Estado → efeitos de aglomeração → competitividade extraordinária → capacidade exportadora persistente → absorção doméstica insuficiente → externalização do excesso de oferta.
Ou seja, um mecanismo muito mais profundo.
11. A comparação Japão–Coreia–Taiwan reforça o argumento
O segundo artigo de Lawrence adiciona outra camada.
Japão, Coreia e Taiwan seguiram estratégias desenvolvimentistas semelhantes e tornaram-se democracias.
Ainda assim, suas participações no consumo das famílias em 2025 eram:
- Taiwan: 43,4%;
- Coreia: 48,0%;
- Japão: 52,9%.
versus cerca de 60% globalmente.
Portanto, simplesmente dizer:
“A China consome pouco porque é autoritária”
é inadequado.
O problema é estrutural.
O modelo desenvolvimentista criou uma arquitetura distributiva em que:
capital → empresas → exportações → investimento
foi priorizado sobre:
renda → famílias → consumo.
Democracia pode mitigar, mas não reverter automaticamente.
12. A resposta atual da China pelo lado da oferta é reveladora
O último artigo de Lawrence argumenta que Pequim reconhece repetidamente o problema de demanda, mas responde com outra solução pelo lado da oferta.
Ou seja, quando o consumo é insuficiente, a política tende a produzir:
mais infraestrutura + mais capacidade industrial + mais produção
em vez de:
maior renda familiar + proteção social + redistribuição + maior propriedade de ativos pelas famílias.
O artigo relata, por exemplo, que as redes de infraestrutura propostas envolvem cerca de 25 trilhões de yuans em cinco anos, enquanto a questão fundamental — quem comprará a produção? — permanece sem resposta.
Isso sugere que a pressão exportadora chinesa pode ser a manifestação internacional de um problema doméstico de distribuição da demanda.
Na próxima e última newsletter desta série trataremos das últimas cinco etapas do debate sobre o “Aperto da China”!
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre o “Aperto da China”, não hesite em nos contatar!
PS: Agradecemos ao ChatGPT pela ajuda na síntese aqui contida!
